"Desde que dormi inverno, não mais acordei verão.
Que me perdoe a
ditadura do otimismo, mas, tenho preferido a minha solidão.
Bebo café
como um dia beijei-te a boca – compulsivamente.
Apego-me à fé com o
resto da minha carne oca – desesperadamente.
Coleciono dúvidas e
arrependimentos que costumam ocupar boa parte dos meus dias
e, de tanto
colecionar médicos, tornei-me, também, um colecionador de terapias.
Escrevo-te sete cartas por semana desde aquela terça-feira,
e como
não sei onde moras, guardo-as na tua penteadeira.
Tenho preferido a
cama, mesmo sem ter conseguido dormir.
Tenho preferido o drama, visto a
minha atual impossibilidade de sorrir.
O descaso com o nosso jardim é um
reflexo da tua ausência,
pois, se não posso cuidar de mim, como
sustentarei uma outra existência?
Tenho o direito de ser triste pelo tempo que for preciso.
Tenho o direito de ser noite e de agir como um morcego.
Tenho o direito de escolher se um dia terei sossego
e, de quando, como e onde, darei meu próximo sorriso.
Voltei a ouvir tango e a culpa é toda nossa.
O que seriam dos poemas de
amor partido, se não fosse – verdadeiramente – funda, a fossa?"
- Fillipo Rocha -

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