sábado, 18 de março de 2017

"Poema de amor partido"

"Desde que dormi inverno, não mais acordei verão.
Que me perdoe a ditadura do otimismo, mas, tenho preferido a minha solidão.

Bebo café como um dia beijei-te a boca – compulsivamente.
Apego-me à fé com o resto da minha carne oca – desesperadamente. 

Coleciono dúvidas e arrependimentos que costumam ocupar boa parte dos meus dias
e, de tanto colecionar médicos, tornei-me, também, um colecionador de terapias.

Escrevo-te sete cartas por semana desde aquela terça-feira,
e como não sei onde moras, guardo-as na tua penteadeira.

Tenho preferido a cama, mesmo sem ter conseguido dormir.
Tenho preferido o drama, visto a minha atual impossibilidade de sorrir.

O descaso com o nosso jardim é um reflexo da tua ausência,
pois, se não posso cuidar de mim, como sustentarei uma outra existência?

Tenho o direito de ser triste pelo tempo que for preciso.
Tenho o direito de ser noite e de agir como um morcego.  
Tenho o direito de escolher se um dia terei sossego
e, de quando, como e onde, darei meu próximo sorriso.

Voltei a ouvir tango e a culpa é toda nossa.
O que seriam dos poemas de amor partido, se não fosse – verdadeiramente – funda, a fossa?"

- Fillipo Rocha -

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